O que faz um psiquiatra?

Muitas pessoas acreditam que os psiquiatras são médicos que tratam apenas os “loucos”. É importante esclarecer dois mitos sobre isso.

Em primeiro lugar, o que as pessoas chamam de “loucura” costuma se tratar do que os psiquiatras chamam de sintomas psicóticos.

Exemplos de sintomas psicóticos são escutar vozes dentro da própria cabeça; enxergar vultos, espíritos, pessoas que já morreram; ter crises muito graves de agitação ou agressividade; e acreditar que coisas muito improváveis estão acontecendo (como possuir superpoderes ou ser vítima de perseguições, espionagens, conspirações, ou planejamento de homicídio por parte dos amigos, vizinhos ou familiares). Os sintomas psicóticos podem aparecer (mas nem sempre) em muitas doenças psiquiátricas, como na esquizofrenia, retardo mental, intoxicações por drogas, entre outras. Também podem ocorrer em outros problemas médicos, como nas demências, traumatismo craniano, tumores cerebrais, acidente vascular encefálico (derrame cerebral), infecções graves, problemas endócrinos, intoxicação por remédios, etc.

Hoje em dia, “loucura” é um termo muitas vezes utilizado como ofensa ou com algum sentido preconceituoso. “Loucura” é um termo que há muito tempo deixou de ser usado apenas como sinônimo de doença, por isso vem se tornando um termo inadequado dentro da medicina.

Em segundo lugar, o psiquiatra não trata apenas das doenças que se manifestam popularmente como “loucura”. Assim como um cardiologista trata vários tipos de doenças do coração, o psiquiatra também trata vários tipos de problemas, como insônia, transtornos alimentares, transtornos depressivos, transtorno de ansiedade generalizada, dependência ao álcool ou drogas, problemas de agressividade, transtorno afetivo bipolar, transtornos da atenção e hiperatividade, transtorno do pânico, fobias, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de estresse pós-traumático, ejaculação precoce, entre outras.

Em resumo, é um mito a idéia de que os psiquiatras tratam apenas os popularmente chamados de “loucos”. A área de atuação do psiquiatra inclui uma quantidade bem maior de problemas e doenças.

Como é o tratamento com um psiquiatra?

O psiquiatra é um médico especialista no tratamento das doenças da mente utilizando medicações, mas nem sempre é somente o tratamento farmacológico que ele prescreve. Às vezes a psicoterapia (tratamento pela conversa), a indicação de grupos terapêuticos, o tratamento de doenças físicas ou a orientação sobre a resolução de problemas conjugais, de família ou de trabalho também são necessários para aliviar os sintomas.

Atualmente, durante os cursos de formação, é obrigatório que os psiquiatras também aprendam algumas noções de psicoterapia. Existem diversas modalidades de psicoterapia. A maioria delas consiste em um tratamento baseado no uso da conversa, com o objetivo de ajudar o paciente a desenvolver capacidades para lidar melhor com seus problemas. Muitas vezes o psiquiatra não faz o tratamento sozinho, encaminhando os pacientes para acompanhamento com psicólogos ou grupos terapêuticos.

Em geral, a internação hospitalar, em clínicas ou comunidades terapêuticas é reservada para uma minoria de pacientes, somente quando o caso é muito grave e não pode ser resolvido somente com acompanhamento no consultório.

Alguns psiquiatras também realizam terapia de grupo; eletroconvulsoterapia; estimulação magnética transcraniana; ou prestam consultoria para médicos de outras especialidades que estão com pacientes internados.

Qual a diferença entre psiquiatra, psicólogo, psicoterapeuta e psicanalista?

Os quatro tipos de profissionais atuam em problemas relacionados à mente e às emoções.

O psiquiatra cursou faculdade de medicina e depois se especializou na área das doenças mentais, tendo como característica particular a prescrição de medicamentos (mas não somente esse tipo de tratamento).

O psicólogo cursou faculdade de psicologia, e também realiza tratamento dos problemas da mente e das emoções, mas não prescreve medicamentos. O psicólogo também estuda as diferentes teorias de formação da personalidade e pode trabalhar, por exemplo, em diversas áreas como na psicologia comunitária; na psicologia escolar; nas diferentes modalidades de psicoterapia; na aplicação de testes diagnósticos; nos setores de recursos humanos, seleção e recrutamento de pessoal em empresas e instituições.

O psicoterapeuta é um profissional especializado em aplicar algum dos tipos de psicoterapia. Existem vários tipos de psicoterapia, mas a maioria delas consiste em um tratamento baseado na conversa, com o objetivo de ajudar os pacientes a lidarem melhor com as emoções em algum momento complicado de suas vidas. A maioria dos cursos de especialização em psicoterapia dura de dois a três anos. Em geral, tanto os psicólogos quanto os psiquiatras podem fazer esses cursos para trabalharem como psicoterapeutas.

O psicanalista é um profissional treinado para realizar um tipo muito especializado e prolongado de tratamento chamado de psicanálise, que tem como objetivo provocar profundas e duradouras mudanças na personalidade, no jeito de pensar. É popularmente conhecido (e mostrado nos filmes) como aquele tratamento em que se deita em um divã para falar dos problemas. Tanto os psicólogos quanto os psiquiatras podem estudar para se tornar psicanalistas. Em geral, a maioria dos cursos de especialização em psicanálise dura no mínimo seis anos.

Não é obrigatório que os pacientes saibam essas diferenças. Em geral, os profissionais da área da saúde mental saberão orientar as pessoas para o especialista mais adequado. Algumas vezes, os pacientes precisam fazer consultas com psiquiatra e com psicólogo na mesma época, fazendo um tratamento conjunto no qual um profissional complementa o trabalho do outro.

Os medicamentos psiquiátricos causam dependência?

Essa é uma questão que pode se referir a dúvidas natureza completamente diferentes.

Algumas pessoas querem saber se os remédios psiquiátricos viciam assim como as drogas ilícitas. Alguns dos remédios mais antigos usados como tranqüilizantes ou soníferos (os barbitúricos) podiam provocar vício, mas eles quase não são usados hoje em dia. Já surgiram remédios mais modernos que estão quase livres desse efeito colateral. Além disso, os psiquiatras são cada vez mais orientados a não prescrever remédios indiscriminadamente, ou somente usá-los durante o tempo em que forem absolutamente necessários. Por último, existem muitas classes (“famílias”) de remédios usados pelos psiquiatras, e somente poucas delas têm algum risco de causar vício. A maioria das medicações para tratar doenças psiquiátricas está livre desse problema.

Outras pessoas querem saber se, uma vez iniciado o uso de remédios, precisarão usá-los para o resto da vida. Nesse caso existem duas respostas. Algumas pessoas podem desenvolver uma doença psiquiátrica crônica ou recorrente, ou seja, uma doença que vai durar a vida inteira. Nesse caso, é a doença que exige tratamento contínuo, e não os remédios que causaram a dependência. É semelhante às pessoas que possuem diabetes ou hipertensão arterial, doenças que não têm cura e precisam de controle com remédios durante a vida inteira.

Existem situações em que a medicação é prescrita apenas por um curto período. É o que acontece, por exemplo, em alguns casos de insônia, transtornos de adaptação ou tratamentos para abuso de drogas. Em casos especiais de transtornos de ansiedade ou do primeiro episódio de depressão na vida, a medicação pode ser usada durante 1 ano e depois reduzida gradualmente. Nesses casos, mantém-se temporariamente o acompanhamento psiquiátrico, mesmo depois de suspender a medicação, a fim de observar se os sintomas estão reaparecendo.

Em resumo, o receio de “dependência” é antes de tudo um problema de insegurança ou falta de informação por parte dos pacientes do que um problema realmente biológico.

Qual o melhor tratamento: psicoterapia ou uso de remédios?

Isso é muito variável e depende de cada caso. Observe alguns exemplos. Problemas de relacionamento familiar, conjugal ou no trabalho, bem como luto e alguns transtornos de adaptação são melhor tratados com psicoterapia.

Casos leves de depressão, de transtornos de ansiedade, de fobias e de abuso de drogas também podem ser tratados com psicoterapia, mas os casos moderados podem precisar de auxílio adicional de medicamentos.

Casos realmente graves de algumas das doenças psiquiátricas exigirão o uso obrigatório de medicamentos, mas uma psicoterapia adicional pode melhorar o tratamento.

Na verdade, para muitos casos, a combinação de tratamento farmacológico com psicoterapia oferece um benefício maior do que cada um isoladamente. É o caso, por exemplo, daqueles tratamentos para abuso de drogas em que o paciente faz acompanhamento com psiquiatra e, conjuntamente, alguma psicoterapia individual, familiar ou terapia de grupo.

Os diferentes tratamentos podem ser realizados por mais de um profissional. Cada caso deve ser avaliado individualmente para se tomar a decisão do melhor tratamento a ser indicado.

Os medicamentos psiquiátricos são muito fortes (muitos efeitos colaterais)?

Na verdade não existe remédio sem risco de efeitos adversos. Até mesmo um simples analgésico possui uma lista enorme de efeitos colaterais descritos em sua bula.

Os medicamentos psiquiátricos podem apresentar efeitos colaterais variáveis entre os indivíduos. A mesma dose de um remédio pode causar efeitos insuportáveis em uma pessoa e não provocar qualquer complicação em outra. O paciente precisa avisar ao psiquiatra caso apareçam efeitos colaterais para que ele tome as providências necessárias.

Em geral a maioria dos efeitos colaterais podem ser resolvidos. Ao contrário do que muitos pensam, eles não surgem em todas as pessoas. O problema é que não se pode prever em quem eles vão aparecer.

Muitos efeitos colaterais diminuem ou desaparecem depois das primeiras semanas de uso, assim que o organismo se acostuma com a substância. Outros efeitos adversos podem ser resolvidos mudando as doses ou trocando a medicação, como no caso das alterações da memória e raciocínio; mudanças de apetite; aumento de peso; tontura; sonolência; boca seca; e mudanças no desejo sexual ou na capacidade de atingir orgasmo. Às vezes, a simples troca do horário de uso remédio pode resolver o problema. Isso pode acontecer, por exemplo, nos casos em que o paciente apresenta muito sono após a dose de algum remédio. Nesse caso, a simples troca do horário para antes de dormir pode solucionar o problema. É importante o paciente se sentir à vontade para informar ao seu médico e debater sobre os efeitos colaterais ao invés de abandonar o tratamento. O diálogo aberto com o psiquiatra é a melhor forma de resolver esses problemas.

Por que os remédios não estão funcionando?

Pouquíssimos medicamentos psiquiátricos produzem resultado logo após as primeiras doses. A maioria deles leva 4 a 6 semanas para atingir o efeito desejado. Isso ocorre porque a melhora dos sintomas depende de mudanças lentas que ocorrem nas células cerebrais. Infelizmente, muitas vezes os pacientes abandonam por conta própria o uso do medicamento, antes de esperarem o tempo mínimo necessário. Além disso, em muitos casos o tempo necessário é maior do que 4 a 6 semanas, pois algumas pessoas precisam de doses mais altas ou, por serem mais sensíveis aos efeitos colaterais, precisam que as doses sejam aumentadas muito lentamente. Em alguns casos, a dose ideal pode levar até três meses para ser atingida. Um exemplo disso é no transtorno do pânico, no qual os remédios são os mesmos do tratamento para depressão, mas precisam ser aumentados mais lentamente. Outro exemplo é no transtorno obsessivo-compulsivo, no qual se usa os mesmos medicamentos para depressão, porém em doses bem mais altas.

Em outros casos, o primeiro medicamento realmente não produz efeito. O mesmo remédio que melhora os sintomas de uma pessoa pode não provocar qualquer benefício em outra. É a forma como o organismo de cada um reage que faz a diferença, e isso não pode ser previsto pelo psiquiatra. Na maioria das vezes o tratamento terá que ser conduzido por tentativa e erro, até se encontrar o medicamento ideal para cada paciente. Paciência no início do tratamento é fundamental. Trocar de psiquiatra com muita freqüência faz com que o próximo profissional inicie as tentativas quase do ponto zero. O paciente pode acabar se prejudicando, pois demora mais tempo para ter seu diagnóstico esclarecido e para descobrir o medicamento que melhor se adapta ao seu organismo. Em casos mais extremos, o paciente pode até mesmo vir a desacreditar em qualquer tratamento para seu problema.

Outro fenômeno comum é a expectativa exagerada no efeito dos remédios. Algumas pessoas acreditam que todos os seus problemas serão resolvidos com o uso dos medicamentos. Por exemplo, alguns esperam que os remédios lhes tragam felicidade, satisfação pessoal ou profissional ou alívio completo dos sintomas, quando na verdade a causa está numa série de problemas conjugais, familiares, de trabalho ou nos relacionamentos em geral. Os medicamentos em geral não solucionam problemas de relacionamento. Por isso as psicoterapias são muitas vezes o tratamento adicional indispensável ou até mesmo o tratamento principal para melhorar os sintomas.

Por que os remédios pararam de funcionar?

Infelizmente, a causa mais comum da piora dos pacientes é o abandono ou o uso incorreto das medicações.

Um dos erros mais comuns ocorre quando a pessoa, por conta própria, para de usar os remédios depois que os sintomas desaparecem. Muitos se enganam achando que estão completamente curados, pois os sintomas só reaparecem semanas ou meses depois de abandonar o tratamento. Nesses casos, é comum as pessoas se sentirem envergonhados de reiniciar o tratamento, atrasando ainda mais a solução do seu problema. Isso pode ser especialmente prejudicial em quem possui Esquizofrenia, Depressão ou Transtorno Afetivo Bipolar, pois podem precisar de internação hospitalar durante as crises graves.

Outro erro comum é deixar uma pessoa com doença grave cuidar sozinha de seus remédios. É comum alguns pacientes se confundirem com as doses ou mentirem que estão usando os medicamentos. Alguns chegam a esconder os comprimidos embaixo da língua. Em muitos casos, o controle e a vigilância da família são essenciais. Algumas pessoas com Retardo Mental, Transtorno Afetivo Bipolar ou Esquizofrenia que não aceitam a doença ou são muito resistentes ao uso de remédios podem precisar especialmente desse tipo de vigilância.

Outras pessoas abandonam ou diminuem por conta própria a dose dos medicamentos devido aos efeitos colaterais. Muitos têm constrangimento de falar com seu psiquiatra sobre os efeitos desagradáveis ou sobre seu desejo de parar com os remédios. O ideal seria enfrentar o constrangimento e falar sobre o assunto, pois muitos desses efeitos podem ser resolvidos ou minimizados até se tornarem suportáveis.

Outros casos de piora ocorrem devido aos efeitos oscilantes da própria doença ou devido ao surgimento de novos problemas de vida. Por exemplo, é comum pessoas com ansiedade ou depressão se queixarem que o medicamento parou de funcionar, mas na verdade estão enfrentando um novo problema conjugal, no trabalho, na faculdade, ou na família.

Em resumo, na maioria das vezes não é o remédio que parou de fazer efeito e sim outra situação que precisa ser investigada. A melhor forma de prevenir as crises é manter os pacientes e familiares bem informados sobre como funciona a doença e o tratamento. Também é importante compreender que, mesmo durante o tratamento, algumas doenças vão naturalmente manifestar períodos de crise. O uso de medicamentos pode prevenir muitas crises ou diminuir sua gravidade, mas às vezes não é possível evitá-las por completo. Nesses casos é essencial que o paciente e a família sejam instruídos sobre como procurar ajuda em casos de urgência. O diálogo aberto com o psiquiatra e a psicoeducação são parte fundamental do tratamento.